quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Roda Cimeira - Oitenta anos numa centena de páginas

Com a apresentação do livro “80 anos ao Serviço do Regionalismo”, da autoria de Adriano Pacheco, a Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira deu por encerrada a comemoração de oito décadas de história.

O evento realizou-se na Casa de Convívio da aldeia, no passado dia 31, véspera de comemorar 81 anos, tendo sido a ocasião foi aproveitada para a atribuição de diplomas de sócio honorário e benemérito a figuras que se distinguiram em prol do desenvolvimento de Roda Cimeira.

Durante a cerimónia, o presidente da direcção, Jaime Carmo, recordou o passado da colectividade, a mais antiga do concelho de Góis, e os seus dirigentes, pois foi graças ao seu trabalho que o nome da aldeia se tornou mais conhecido. Os momentos principais da sua história, disse ficarão inscritos na memória graças ao trabalho de pesquisa e recolha de Adriano Pacheco por isso, concluiu, “o livro é pequeno mas é grande – tem 80 anos”.

Em nome da Assembleia Municipal de Góis, falou Jaime Garcia, por impedimento do presidente daquele órgão autárquico. Realçou que as atribuições do Regionalismo do novo século não lhe retiram a importância – além de promoverem acções de âmbito cultural e recreativo, são os interlocutores entre as povoações e as autarquias e, no caso de Góis em que a desertificação alastra, compete-lhes, ao lado do poder local, ajudar a “manter o laço efectivo com as populações”.

O autor Adriano Pacheco, já com inúmeras obras de ficção publicadas, falou sobre o trabalho de investigação desenvolvido e agora reunido nesta publicação, “valeu a pena as horas despendidas”, concluiu. O que o incentivou a realizar a pesquisa e a escrever os seus resultados, disse Adriano Pacheco, foi o sentir a necessidade de contribuir para que a história não caia no esquecimento “traduzida em palavras e símbolos, para a posteridade” pois ela revela uma luta, como os seus desânimos e conquistas, afirmou.

Também a Presidente da Câmara Municipal de Góis, Lurdes Castanheira, teceu elogios ao trabalho do autor, “é o testemunho que as pessoas sabem honrar os que trabalham e têm memória”. Recordou o seu percurso pessoal que lhe deu um conhecimento desta aldeia, “Na roda Cimeira ainda há abandono e estas aldeias não podem ficar abandonadas”, concluiu e afirmou o seu desejo que o serviço social ali seja retomado.

De seguida, o presidente da direcção apresentou as pessoas que foram nomeadas para a qualidade de sócios honorários e beneméritos pela Assembleia Geral, depois de proposta da direcção. “Há dez anos que não se atribuíam estes títulos”, confirmou, “pelo que estava no momento de realçar os que merecem”, marcando a intenção com entrega de diplomas.

Assim indicou para sócios honorários: João Lopes Simões, Acácio Baeta Henriques, Jaime de Almeida, Artur Vítor, Jaime Barata, Armando Barata Simões, João Maurício Henriques, João Lopes Cascalheiro, Libânio Simões de Oliveira, Salvador Nobre.

Foram nomeados sócios beneméritos: António Neves Barata Lima, que foi proprietário de um moinho que muito trabalhou para a povoação e que a direcção da Sociedade gostaria de ver restaurado; o casal, Engº António Moreira Padrão e a srª D. Beatriz Rebelo Moreira Padrão, pois foi graças à doação de um terreno que se pode ter hoje, junto à Ribeira de Sinhel, uma piscina com amplo espaço de lazer.
in www.jornaldearganil.net

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Os Talentos da Região de Góis

Nas dobras profundas da nossa serra se escondem, por vezes, aptidões surpreendentes e se ocultam talentos fantásticos que mal podíamos adivinhar a sua existência, ali debaixo do nosso nariz, mesmo quando a chuva diluviana cai, ou quando o astro-rei se inclina impiedosamente sobre os montes, um talento destes se pode manifestar quando menos esperamos. Ele há coisas que nos surpreendem quando menos esperamos, até quando a lua desponta atrás dos montes e tenta' ocultar-nos, por ciúmes, as estrelas mais brilhantes do firmamento.
Sempre nos aceitámos como oriundos duma região culturalmente pouco desenvolvida face à escassez de autores conhecidos na nossa praça, apesar, destes poucos, nos merecerem o maior apreço e consideração. Por outro lado, em jeito de recompensa, temos a generosidade da natureza que nos brinda, todos os dias, com os seus encantos. Acontece que os talentos populares nem sempre se levantam do seu recatado lugar, nem são muito dados a emergirem do seu cómodo anonimato. Atitude que mal podemos compreender, já que o belo só passa a sê-lo quando se é dado a conhecer, contudo respeitamos tal posição. 'pois é da condição humana.
Ainda mal refeitos da surpresa que fomos acometidos, não queremos nem podemos ficar reféns da ocultação das grandes potencialidades dum poeta popular da nossa região, pouco ou nada conhecido, que cultiva não só a arte de rimar, como ainda tem a capacidade de transformar qualquer história em poesia, dentro do seu alto e refinado gosto seguindo o seu entendimento. Esta faceta já muito rara, não é comum, nem está ao alcance de qualquer mortal. Trata-se duma aptidão própria de alguém que, durante a sua vida, cultivou este género literário.
Estamos a falar do nosso amigo Ernesto Rosa do Corterredor, que ainda há bem pouco tempo nos obsequiou com um poemário concebido e extraído da história do livro de "O Rasto dos Barrões", do qual não resistimos a transcrever apenas uma estrofe dos dezoito poemas que escreveu: " Nas Mestras ao fundão, a norte/ era há muito venerada/ senhora da Boa Morte/ deixou de ser festejada/ a lenda foi praticada/ mas com um pouco de
sorte/ creio não foi esborratada/ contudo menosprezada/ a nova causou desnorte". E em jeito de esclarecimento e afirmação remata:
"Jamais alguém pode ter/ a mesma visão do que eu/ donde me encontro a ver/o ângulo é tão-só meu."
Para que se conste, aqui deixamos este pequeno lamiré das capacidades do ainda pouco conhecido, António Aleixo" do Corterredor de Góis, cujo versejar contém alguns dos seus ingredientes - remoques e insinuações mordazes -, cultivadas, com toda a maestria, pelo célebre poeta popular algarvio. O nossa estupefacto, mal se pôde conter, quando nos dermos conta que buscávamos noutras paragens aquilo que tínhamos à nossa porta, um poeta com o valor do Ernesto Rosa, nosso conterrâneo. Ele há coisas! ...
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 22/10/2009

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sábado, 17 de outubro de 2009

A História da Sociedade de M. de Roda Cimeira

A colectividade mais antiga do Concelho de Góis vai, em 31.10.09, tornar público a história da Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira, através dum documento com a compilação de actos, festejos e deliberações sobre melhoramentos mais relevantes, ocorridos durante oitenta anos de profícuo trabalho ao serviço da comunidade. Trata-se dum documento despretensioso que tenta apenas dar a conhecer os seus momentos altos, com a finalidade de perpetuar a memória e a dedicação dos seus destacados dirigentes (fundadores), sócios beneméritos e colaboradores mais dedicados.
Numa segunda e atenta leitura pode observar-se, com evidência, a obra ímpar que esta colectividade desenvolveu na sua aldeia ao longo de oito décadas. Obra materializada em equipamentos sociais visíveis, o culto do fervor regionalista desencadeado pela acção permanente que fez crescer e avivar o amor à terra natal. É um pouco o espelho das actas das reuniões e seus debates, seguidos de deliberações, os quais deixam o testemunho de quem esteve presente e viveu intensamente todos os momentos, não só de desânimo mas também de muita paixão regionalista.
Na vida dum ser humano, oitenta anos são preenchidos por muitos dias, por muitas vivências de vários tipos: de frustrações e de contentamento da obra realizada; de angústias e de euforias por mais um passo em frente. Numa colectividade, imagine-se, esses oitenta anos são vividos por muitas pessoas de temperamentos diferentes, de opiniões diversas que resultam num somatório duma riqueza humana incalculável, neste caso, irmanados no mesmo ideal que os trouxe até aqui. É neste aspecto que, para quem não entende, reside e se aviva a grande chama do regionalismo.
Essa é também a poderosa força dum povo que faz mover uma colectividade até ao limite das suas forças. Razão pela qual concluímos que, a Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira tem hoje um historial que lhe confere o direito de se fazer ouvir dentro dos meandros do regionalismo serrano. Tem um legado fantástico para deixar aos vindouros, não se ficou por experiências esporádicas inconsequentes, nem por foguetes de pólvora seca que em nada resultam. Tem uma escola de militância feita, onde são observados os velhos cânones, os quais devem merecer o respeito de todos os regionalistas que trilham o mesmo caminho.
Seria, uma pena que, estas valorosas experiências humanas ficassem esquecidas, este esforço sobre-humano ficasse em cada um dos intervenientes, ou se vertesse apenas das memórias dos actores destas lutas. Hoje, porém, já tem a sua história escrita; um documento que pode ser consultado, criticado e melhorado. É um trabalho inacabado que pode sempre ser actualizado.
Não queremos terminar sem deixar uma palavra de apreço e admiração aos protagonistas desta história, desde os mais remotos aos actuais, bem como aos colaboradores que quiseram contribuíram com os seus testemunhos, para que este pequeno trabalho pudesse ser hoje uma realidade, para elevação desta distinta colectividade.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 15/10/2009

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"O Rasto dos Barrões" no Corterredor

Aquele vale do Ceira onde as encostas são mais íngremes e o solo mais pedregoso, as margens mais alcantiladas e apertadas, a paisagem reverdejante e a quietude se estende para montante, é o percurso mais genuíno dum rio que galga da montanha para ali ir perdendo o declive, na mira de encontrar um leito mais suave até à foz. O trajecto mais montanhoso mereceu-nos uma observação sobre usos e costumes daquelas gentes, com o propósito de deixar um registo bem vincado na memória. Não se trata duma monografia mas duma verdade ficcionada.
Este registo não pretende ofuscar o enorme e afincado trabalho dum regionalismo feito de lutas e paixões que, ao longo dos tempos, tem clamado pela maior visibilidade das suas aldeias, cujos habitantes vão dando a rica presença humana à serra que, à primeira vista, parece nua intransponível e desabitada. É uma aguarela fresca que estas margens nos deixaram nestes acessos difíceis, onde o verde e as rochas vão coabitando sem conflitos, tal como as gentes beirãs, de grande apego à sua terra, vão estabelecendo uma dimensão humana por aqueles vales além. Não fora a nossa qualidade de serranos e o espanto nos teria assaltado com maior intensidade.
Este vale verdejante onde existe a profunda e verdadeira ruralidade típica, protegida de toda a poluição, aberto ao nosso conhecimento em tempos de "vacas magras", onde a tarefa do carvão era uma marca serrana, cuja figuração, hoje só poderia existir no nosso imaginário como se duma visão da tarde de calor se tratasse. Pois bem, este vale (melhor ou pior caracterizado) foi palco das personagens de "O Rasto dos Barrões" que retratam bem a têmpera dos homens que foram capazes de lutar contra adversidades que a montanha lhes impunha, os meios lhes restringem o folgo, mas o querer e a vontade indómita lhes aguçava o engenho e a arte. Tempos difíceis!
Aqui, neste palco oferecido pela natureza, vai ocorrer uma cerimónia em homenagem aos carvoeiros, executantes duma tarefa árdua tão difícil quanto perseguida, aos santuários erguidos pela montanha em que o homem é apenas e só contemplador, excepção feita à capela da Sr.ª do Desterro. Destes marcos históricos, "O Rasto dos Barrões" vai deixar um testemunho público, na aldeia do Corterredor onde a Marquinhas tinha a taberna, o Raimundo se desunhava para conquistar esta beldade beirã. Não esquecendo a ti'Zulmira sardinheira que atravessava a serra com a canastra à cabeça para ganhar a vida sem vergonhas do mundo. Vida difícil!
Ficam assim convidadas as gentes das Mestras, Corterredor, Cabreira e toda a freguesia do Cadafaz, para uma cerimónia que dentro em breve terá lugar na aldeia do Corterredor, dando a conhecer o livro "O Rasto dos Barrões" que fala da vossa terra.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 17/09/2009

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Falta um projecto mobilizador para o concelho de Góis

O momento que se está a viver é deveras convidativo ao apelo dos eleitores para que, nas autárquicas, votem nesta ou naquela lista consoante os credos, ou interesses pessoais, apelo esse que, à partida, traz uma grande carga de "partidarite", síndroma que a nível nacional é muito difícil fugir dela, mas no plano local é o que menos pesa e que menos lucidez traz a um pensamento objectivo. Quer por uma razão, quer por outra, não vamos, nem queremos entrar por esse caminho.
Contudo, num pensamento aberto e não intoxicado, aquilo que deve estar presente na orientação duma escolha, acertada, é a personalidade e o conhecimento do candidato, o modelo e o estilo da governação que pretende exercer, segundo o qual deve reunir um punhado de orientações (ideias) que lhe permite ver longe o alcance do programa que pretende implementar. Para tanto, necessita do seguinte:
-Deve, acima de tudo conhecer por dentro e de perto, o tecido social do concelho e consequentemente as suas carências e não apenas as franjas;
-Deve ter vontade própria, visão estratégica e uma postura diferente não arrogante mas assertiva e firme. Deve romper com "o estado de coisas" instalado. Acima de tudo, imunizar-se das intrigas e da má-língua e que grassam, que corrompem qualquer
governação e que tão má nota têm dado do próprio concelho.
-Ter carisma e muita coragem para implementar um modelo próprio de governação e não apenas de faz de conta.
A partir daqui, será necessário apenas encontrar uma equipa capaz, coesa e leal porque a oposição, seja ela qual for só se afirma no pior entendimento, quando dificulta e denigre todo um plano em execução. Infelizmente todos nós estamos habituados a ver qualquer oposição trilhar o caminho do "bota abaixo" em vez de ajudar a sua região de maneira digna e construtiva.
Basta passar uma vista d' olhos pelo Blogóis, que devia ser um exemplo de promoção e informação da zona e o que se vê, através de alguns comentários indecorosos é de facto de muito baixo nível algo que envergonha o cidadão comum, que só pode vir de gente ressabiada, mal formada e que ainda por cima se esconde na capa do anonimato! Esquecendo-se que a leitura destes…comentários pode ser em qualquer sítio e, a marca que fica disto recai sobre o nome de Góis!
Alguém, de bom senso, ou que ama a sua terra, pode entender isto como uma crítica construtiva e edificante??? Trata-se de algo que não fica muito bem dentro da liberdade de expressão, tenham lá paciência!
Ainda sobre o candidato que vier a ser eleito, é importante que tenha presente um modelo e estilo próprios, que vá romper com estereótipos velhos e "relhos", já gastos e que tenha a coragem de dar a cara. Todos sabemos que o concelho é muito extenso e disperso e que por isso lhe falta força identitária que unifique todo o território à volta dum projecto mobilizador.
E aqui, chegámos ao ponto nevrálgico, ou seja, à chave de toda a problemática que emperra e enferruja toda e qualquer dinâmica nova que se queira implementar. É urgente criar-se um projecto mobilizador e um símbolo à volta deste concelho, coisa ainda não conseguida e que só será possível à volta de um ideal. Haja coragem!!!
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 20/08/2009

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Os não residentes no concelho de Góis

Todas nós sentimos e lastimamos os efeitos maléficos da desertificação, ou melhor, do despovoamento que têm assolado o concelho de Góis sem contemplações. Todos nós entendemos que a inversão desta tendência, aliás comum em todo o lado, levará algumas gerações a sentir-se. No entanto, durante as varias décadas em que o êxodo foi decorrendo, hábitos diferentes se foram instalando, conceitos diversos se foram acentuando e outras mentalidades se foram enraizando, aliás fruto da evolução dos tempos é certo, mas sem que houvesse um esforço do poder local, para que se reforçassem e se tornassem mais visíveis e marcantes os elos identitários que tão importantes são.
O próprio poder local foi aceitando este afastamento de participação da colónia como um dado inultrapassável onde nada podia ser feito, entendendo talvez que se tratava de mero capricho, ou arrufos de altivez (?)
Desvalorizando a representatividade das colectividades regionais sitiadas na capital, que podiam desempenhar o papel de elo de ligação privilegiado, para ajudar a resolver problemas de entendimento e de aproximação entre a região e a colónia goiense. Não esquecendo o esforço feito pelas autarquias no último ano, nunca podemos entender esta reserva ostentada, ou mal disfarçada.
É neste momento particularmente importante, altura em que estão formalizadas as candidaturas ao poder local, que nos propomos trazer a público esta velha questão bem actual, na presunção de conseguirmos sensibilizar os candidatos conhecidos, para que encararem esta "contenda" como absurda e se empenhem numa nova abertura de espírito e capacidade de entendimento de modo a ser encontrado o caminho da colaboração, do diálogo e não da hostilidade, de aproximação e não do afastamento. Em benefício duma região fragmentada, que tão desunida vai ficando, se todos continuarmos de costas viradas.
Seria bom ter-se presente que, esta colónia humana de não residentes no Concelho de Góis, é uma enorme fatia de cidadãos goienses que pagam lá os impostos dos seus imóveis tal como qualquer residente. Dão uma nova vida a esta região quando aí se deslocam e o que é mais estranho e aberrante, é que são olhados e considerados como apátridas, ou como alguém que vai ali apenas para desfrutar das belezas naturais ou "fazer o pão caro". Quando apenas vão matar saudades da sua terra que as sentem como ninguém.
Até hoje, verdade seja dita, apenas vimos um presidente de câmara aberto e interessado nesta problemática e que se esforçou bastante para estreitar laços afectivos regionais.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 13/08/2009

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

A falta de médicos em Alvares

Sempre que por alguma razão do quotidiano nos deslocamos à nossa terra, para lá dos bons ares, do sol brilhante e do verde avassalador numa montanha que nos reduz à condição de répteis submissos, ouvimos também os lamentos desesperantes dos idosos, ora por uma razão, ora por outra. Mas todas elas, ou quase todas, a incidirem sobre o abandono dos idosos mais limitados, coisa que nos deixa perplexos.
Desta vez, encontrámos uma situação de ausência de médico durante um mês, o que obrigava os portadores de incapacidades físicas, ou de doenças crónicas, a pedirem ao Centro de Saúde de Góis, que lhes fossem enviadas as receitas dos medicamentos que estavam a faltar, ou a recorrerem a expedientes mais sofisticados para resolverem o problema que os preocupava. Isto não é uma dificuldade de hoje, é, como todos sabemos, uma situação recorrente.
Se tivermos em conta que a Extensão de Saúde de Alvares, que dá cobertura médica e medicamentosa à segunda Freguesia do País mais extensa, com uma população residente muito envelhecida, alguma da qual com dificuldades de locomoção e que se situa a uma distância de 30 quilómetros e não sei quantas curvas da sede do Concelho de Góis, facilmente se fica a perceber que a saúde em Alvares está muito doente e não se vê jeito de melhorar.
Não sabemos quem é o responsável pelo escalonamento médico dentro do concelho, nem tampouco julgamos que sejam bem poucos. Contudo, uma coisa é certa e parece-nos óbvia que, à míngua de recursos humanos, deve-se impor um critério de distribuição de médicos, de tal forma que dê cobertura às aldeias mais distantes do Centro de Saúde concelhio. Isto manda o bom senso.
Na base desta situação difícil estará, provavelmente, a tão falada falta de médicos com que todos os dias somos bombardeados (não acreditamos nessa teoria, mas sim na má distribuição geográfica deles). E neste Concelho acontece que não há apenas falta de médicos, mas também falta um critério justo na sua distribuição. Mais facilmente um paciente faz 5 quilómetros para ir ao Centro de Góis, do que um outro que tem de percorrer 30 para lá chegar. Isto parece óbvio.
Este é um problema que requer alguma atenção, antes que alguém se lembre de colocar todos os doentes no Centro de Saúde e os deixe lá depositados, com armas e bagagem, até que alguém lhes resolva o seu problema.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 30/07/2009

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terça-feira, 28 de julho de 2009

A IV Jornada Cultural e o Livro "Memórias do Antigamente"

No seguimento das notícias vindas a público sobre a IV Jornada Cultural da Freguesia de Alvares, a qual veio a ter lugar em Cortes seguindo os parâmetros usuais, aliás dignos dum acto cultural merecedor do melhor registo. Tratou-se de um evento importante para a aldeia e para a região, onde estiveram representadas as forças vivas do Concelho de Góis.
Os pormenores da jornada são já do domínio público, entre os quais recuperamos a importante intervenção do Dr. Pedro Pita, Director Regional da Cultura do Centro, que destacou com toda a eloquência o acto cultural que vamos acrescentando no nosso dia-a-dia, acto esse que vai levando a presença enriquecedora da ideia em movimento, que, mais tarde, lhe chamamos história.
Outro pensamento que queríamos recuperar, lançado pelo Presidente da Comissão de M. Alvares António Rui Dias, está no mote que sacudiu as águas mornas, quando se referiu ao impacto positivo levado pelos "novos residentes'; duvidando seriamente que "a comunidade sitiada esteja preparada e receptiva para os receber". Dada a pertinência deste assunto baseado em experiências vividas, mais tarde, gostaríamos de voltar ao tema.
Da parte da tarde apresentou-se ao público o autor do livro "Memórias do Antigamente" - Monografia de Cortes, Dr. Samuel Mateus, Mestre em comunicação social, que nos revelou usos e costumes, hábitos e tradições, sabores e saberes, além duma versão inédita sobre o topónimo de Cortes. Fez também uma explanação dos trabalhos rudes e das canseiras, do rolar manso dos dias intervalado com as festividades, das grandezas e das misérias e da profunda religiosidade deste povo com características muito próprias onde se destaca o apego à sua terra-natal.
O Dr. Samuel Mateus expôs-se ao seu público de maneira simples e despretensiosa, dissertando sobre o valoroso povo de Cortes onde crescem as suas raízes, solo que faz brotar a fonte do seu saber e bebe o entusiasmo da inspiração que lhe aviva e refresca a memória da sua avó Maria Brilhantina Alves, temperada com pesquisas que foi fazendo ao longo dos dias verdes de menino e moço, envoltas duma paixão arreigada que foi crescendo através dos tempos. O sentimento e apreço revelados pela maneira como escreve' sobre este povo, é a forma mais eloquente de destacar a admiração que tem por ele. Trata-se duma revelação de afectos, própria de beirão, que só lhe ficam bem.
"Memórias do Antigamente" é uma monografia bem estruturada onde cabe o perfil sócio-profissional do homem comum, da mesma forma que nos fala do temperamento do trabalhador rural dentro dum colorido da ruralidade serrana, com as suas vestes típicas dos dias de festa religiosa, dos trajes domingueiros e das tradições pagãs que povoam o imaginário de qualquer criança. Abre, assim, espaço às estórias habituais que são tão do agrado de qualquer povo.
Fala-nos também do tipo de habitação e das habituais divisões, dos materiais utilizados na sua' construção. Não se esqueceu da alimentação daqueles tempos, (e que tempos!...) própria da época em que se vivia, algo de importante que marcava a tradição segundo um calendário religioso, ou as tradições pagãs que o homem comum tanto gosta de relembrar. São registos importantes que só tempo saberá falar deles.
Desta monografia levada ao pormenor, só podemos congratularmo-nos com o seu contributo para a cultura local e manifestarmos o nosso mais vivo contentamento por quem sabe o que significa escrever para que outros leiam.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 23/07/2009

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terça-feira, 23 de junho de 2009

Oitenta anos de Regionalismo - O traço de União

Ainda debaixo das fortes emoções vividas ao longo dum ano de intenso trabalho, com muitos, altos e baixos pelo meio, algumas hesitações, descrenças intermitentes a deixarem dúvidas, envolvidas dum arreganho feito de persistência de quem acredita e se entusiasma com a iniciativa que quer levar ao fim; vamos agora tentar alinhavar um balanço final desta inesquecível efeméride, promovida pelo Conselho Regional da Casa do Concelho de G6is.
As festividades do octogésimo aniversário do regionalismo goiense, foram levadas a efeito por cidadãos comuns, vividas por pessoas populares e celebradas pelas gentes do povo, sem destaques nem elevações de qualquer ordem pessoal. Teve a colaboração prestimosa da Autarquia do Concelho e um facto; mas acima de tudo, tentava dar oportunidade as Juntas de Freguesia de ajudarem o regionalismo, entre as quais, a maioria, esteve presente numa colaboração apreciável, o que deveras nos surpreendeu, dado o seu habitual distanciamento destas lides. Foram jornadas de afirmação muito positivas, nunca antes vividas, em que as forças regionalistas do concelho não deixaram de estar presentes, com destaque honroso para as colectividades promotoras.
Os factos estão aí para nos dizerem que, quando as pessoas querem, quando os homens metem ombros ao trabalho, a obra realiza-se dentro da normalidade. Com mais ou menos brilhantismo, com mais ou menos solenidade tudo se faz com o colorido da nossa gente, sem nariz empinado que destoa no meio de povo humilde. As festividades foram um êxito inédito, porque o povo das respectivas, freguesias esteve presente e participou de forma espontânea; as festas eram do povo e para e povo, o que fez ressurgir, de novo, a alma do regionalismo. Assim se realizou uma demonstração de fervor a que nunca tínhamos assistido, e disso damos agora conta. Nestas lides, apesar do imenso trabalho, sobressai sempre o lado bom e compensado r das coisas, o qual está acima duma festa, que é a alma dum povo.
Somos um concelho de largo território montanhoso, com as aldeias muito dispersas e distantes. Cada qual com as suas tradições, com seus hábitos e costumes, cujo traço comum e, apenas, a Serra; nem os rios correm para a mesma bacia hidrográfica! Existe então uma serra que une e separa as aldeias, como se fosse um mar revoltoso! Difícil é encontrar outro traço de união entre as povoações. Quando for encontrado um projecto global que ligue estas aldeias no mesmo ideal, então estará resolvido o problema da falta de identidade deste desarticulado concelho. O quê não será fácil! Mas será um desafio enorme que se põe ao poder local que aí vem. Haja coragem para isso!
Curiosamente, a ideia do traço de união, ou de projecto global para o Concelho de Góis, esteve sempre presente na base do programa de trabalho do Conselho Regional e que tão bons resultados deu, pela forma faseada como foi implementado, respeitando sempre as diferenças culturais de cada freguesia. O início foi algo atribulado sem sabermos bem como cozinhar a ideia, não o escondemos. Mas depois encontrou-se o folgo necessário para se ultrapassarem os vários obstáculos que foram surgindo. Trata -'se dum caminho possível que pode levar-nos a encontrar a união deste território administrativo que ainda está muito fragmentado.
Muito embora possa parecer estranho, acreditamos piamente de que as colectividades, em boas mãos, possam dar um bom contributo para se encontrar o tal traço de união, não para meterem tudo no mesmo saco, mas para unir todas as diferenças que as distingue. Aqui pode surgir um novo campo de actuação para as colectividades, cuja chave de entrada estará nas mãos do poder local. Seria um passo grande para que o regionalismo tomasse a dianteira ao bairrismo.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 18/06/2009

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Adriano Pacheco lançou mais um livro

"O Rasto dos Barrões" é o mais recente livro editado pelo escritor goiense Adriano Pacheco. A sessão de apresentação da obra decorreu no passado dia 9 de Maio, no auditório da Associação de Desenvolvimento Integrado da Beira Serra (ADIBER), numa cerimónia presidida pela Dr.ª Maria de Lurdes Castanheira, que contou com a presença de inúmeras pessoas e com a representação de algumas instituições locais.
A iniciar a cerimónia, Maria de Lurdes Castanheira, em representação da ADIBER, depois de dar as boas-vindas a todos os presentes, leu uma mensagem de Armando Gualter Nogueira que referia a sua impossibilidade de estar presente, enviando, no entanto, uma saudação ao autor e felicitando a ADIBER por mais esta edição literária.
Em seguida, a oradora leu ainda uma carta enviada pelo Presidente da Assembleia Municipal, José António Carvalho, que impossibilitado de estar presente, por compromissos anteriormente assumidos, pediu para transmitir ao autor o apreço e consideração que tem pela sua obra.
Entre muitas presenças enumeradas, Maria de Lurdes referiu os nomes: Lisete de Matos, Prof. João Simões, José Rodrigues e Clarisse Sanches, pelas obras que também já publicaram, aproveitando para desafiar a continuação da escrita e incitando ainda para novos talentos que se venham a manifestar.
Com 175 páginas, "O Rasto dos Barrões", com textos que se baseiam no fenómeno migratório dos beirões da Beira Serra, tem prefácio do Eng. João Coelho e capa do Mestre H. Mourato, enaltecido pela representante da ADIBER, que reconheceu o trabalho do "artista de renome internacional", rendendo-lhe ainda homenagem não só pelo trabalho desenvolvido no livro, mas também pelas obras publicadas no jornal O VARZEENSE e pelas inúmeras exposições em que tem participado.
Lurdes Castanheira, consciente que a ADIBER tem uma área de acção abrangente reconhece que esta dá prioridade à formação, emprego e cultura, pelo que, continua a apostar no apoio ao lançamento de novas obras.
Refira-se que, esta décima primeira obra de Adriano Pacheco foi também apoiada pela ADIBER, no âmbito do projecto "Beira Serra Cultura Viva", subsidiado pelo Programa Comunitário Lider+. Lurdes Castanheira fez uma breve descrição do projecto e referiu algumas das formas como este tem impulsionado a cultura na região da Beira Serra.
A oradora aconselhou vivamente a leitura do livro e felicitou o autor pelo magnífico trabalho.
Para além de Lurdes Castanheira, na mesa d'honra estiveram ainda: Valentim Rosa, membro da direcção da ADIBER, Lourdes Barata, presidente do conselho fiscal da ADIBER, o autor do livro, Adriano Pacheco e o autor do prefácio e apresentador da obra, Eng. João Coelho, que mais uma vez, teve a responsabilidade de corrigir a obra de um autor que "acolhe as ideias e transforma-as em contos maravilhosos", conforme disse João Coelho que aconselhou a sua leitura, incentivando os leitores para fazerem inclusive criticas à obra, desde que construtivas.
Referindo-se aos oito contos inseridos na obra, João Coelho disse: "o livro trás á tona a problemática das raízes da infância e o regresso à sua terra natal". "Aborda ainda o debate de gerações e culturas". "Adriano Pacheco é um cavador cuja enxada dá pão à história de Góis", disse o autor do prefácio, que classificou a obra como sendo um livro de histórias verdadeiras ainda que ficcionadas.
Seguiu-se um momento dedicado à poesia, com a Prof.ª Paula Almeida a declamar alguns poemas de Adriano Pacheco.
Por último, o autor mostrou-se emocionado com a leitura dos seus poemas e manifestou a sua gratidão para com a Dr.ª Maria de Lurdes, a ADIBER e o Eng. João Coelho, que apesar da sua vida ocupada tem sempre encontrado tempo para rever os seus textos.
O autor falou um pouco do seu livro e do seu enquadramento no contexto literário das obras já publicadas e finalizou dizendo: "enquanto puder vou escrevendo".
Com alguns textos já nas mãos do seu revisor, pode afirmar-se que o seu próximo livro "já vem a caminho".
A terminar, foram diversas as pessoas que se pronunciaram sobre a escrita de Adriano Pacheco, encerrando a cerimónia com um beberete, oferecido pela ADIBER.
in O Varzeense, de 15/05/2009

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Freguesia do Cadafaz em festa

Tal como havia sido comunicado, a Freguesia do Cadafaz teve a sua participação nas comemorações do octogésimo aniversário do regionalismo goiense, na Casa do Concelho de Góis, no passado dia 18 de Março, dentro do estilo próprio que bem caracteriza o povo desta freguesia serrana. Tal como, as freguesias que a antecederam nesta efeméride, também a do Cadafaz se esmerou para encher de gente o salão da Casa concelhia; gente que é povo e que se anima com o mais alto fervor regionalista.
A mesa d’ honra era composta pelo Presidente do Conselho Regional Dr. Luís Martins, Presidente da Casa Sr. José Dias Santos, Presidente da Assembleia Municipal Sr. José António de Carvalho, Sr.a Vereadora Helena Moniz, Presidente da Junta de Freguesia do Cadafaz Casimiro Vicente, Presidente da União do Cadafaz Armindo Neves e Valentim Rosa em representação da ADIBER. Depois de ser aberta a sessão com as boas-vindas da parte do Conselho Regional, todos os restantes componentes da mesa deixaram as saudações e a alegria de estarem presentes.
Entre os representantes das colectividades que preencheram o segundo ponto do programa, destacaram-se pelo seu desempenho Armindo Neves, como moderador e apresentador das várias entidades com a eloquência que lhe é reconhecida, e o Sr. Engº Carlos Martins com a sua brilhante intervenção, em que entre outros aspectos, lamentou a inabilidade do poder local em não ter sabido aproveitar a dinâmica do regionalismo e aglutiná-la em favor do desenvolvimento rural, recuperando lagares e moinhos, roteiros e lugares de memória, com vista ao desenvolvimento do turismo rural a sério, onde deveria caber também um museu do volfrâmio e a gastronomia regional.
Destacou-se também Casimiro Vicente, Presidente da Junta de Freguesia do Cadafaz, na organização e coordenação de toda a parte logística que envolveu o lauto banquete que fez transportar lá da serra, deixando os participantes boquiabertos, e com água na boca, com a enorme variedade de petiscos e iguanas da região.
Além disso, fez-se também acompanhar do técnico silvicultor, Engº Carlos Machado, para apresentar um projecto integrado de gestão de recursos naturais que pretende implementar naquela região, envolvendo a agro-pastorícia e o turismo rural, centro de idosos e salão de multiusos, que está a ser estudado pela empresa Silvo Consultores, a qual se mostra empenhada em gerir os recursos em parceria com todos os interessados.
Tratando-se de uma nova visão sobre o aproveitamento de recursos e do desenvolvimento das potencialidades da região que pode vir a promover um desentorpecimento da economia local. Isso chamou a atenção dos interessados como algo de importante a ter em conta, por um lado e, por outro, como é de que o projecto seria posto em prática no terreno, já que poderia vir a ter implicações com os proprietários locais. Este assunto mereceu da parte da senhora Vereadora Helena Moniz várias questões que lhe foram esclarecidas no momento.
Assim se passou uma tarde totalmente preenchida de belo convívio, confraternização, muita alegria, música para todos os gostos e por fim a actuação do rancho folclórico da freguesia do Cadafaz, que a todos brindou com as suas danças.
Adriano Pacheco
in O Varzeense, de 15 de Maio de 2009

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Apresentação de mais uma obra de Adriano Pacheco em Góis

No próximo sábado, dia 9 de Maio, vai decorrer a cerimónia de apresentação da obra literária “O Rasto dos ‘Barrões’” da autoria de Adriano Pacheco, em Góis. De acordo com um comunicado enviado ao RCA NOTICIAS pela ADIBER, esta cerimónia vai decorrer pelas 16h00, no Auditório da ADIBER, em S. Paulo, Góis.
in www.rcarganil.com

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santuário da Senhora do Desterro

Faz parte do imaginário da geração de sessenta a história fantástica que se desenrola à volta do Santuário da Senhora do Desterro, localizado lá no cimo do cerro, onde ocorria todos os anos uma romaria das gentes serranas, oriundas de todo o vale das Mestras, do Corterredor e do Cadafaz, tal como da vertente dos Amieiros e das Rodas. Romaria esta que, na época, fazia furor o seu folclore e a garridice que lhe deram a notoriedade como sendo uma das mais concorridas, mas sobre a qual já poucos dos vivos poderão testemunhar todo este folguedo.
Esta capela de estilo curioso e pouco vulgar (coisa muito próxima do românico antigo) foi, em tempos, objecto de alguns desentendimentos entre os povos das aldeias vizinhas, os quais, ao que sabemos, estão largamente ultrapassados e esquecidos, tal como as antigas romarias dirigidas a este Santuário, tradição que aos poucos vai ficando no esquecimento dos tempos. O espaço circundante, ermo espantoso de horizontes e serranias, esteve ligado por muitos anos à pobre e difícil actividade da exploração de carvão vegetal, que se estendia por aquelas vertentes abaixo.
Com este cenário vetusto e grandioso, por fundo, desenrola-se uma história que será apresentada ao público no dia 9 de Maio, no auditório da ADIBER, Góis, com a finalidade de deixar um registo desta espantosa margem esquerda do Ceira. Ela envolve a gente serrana nas suas mais duras tarefas, onde é posta à prova a sua capacidade de luta e resistência, cuja fidelidade tem resistido à voracidade dos tempos e ainda hoje são visíveis sinais de preservação e respeito pelo seu valioso e belo património arquitectónico e paisagístico. São indícios fortes da sua autenticidade que se colocam muito para lá da estética ligada à harmonia do espaço, ainda que esta seja muito apreciável. Trata-se duma maneira de ser, um apego indefectível.
A história acima referida, também nos dá conta das gentes que tiveram de procurar outras regiões do País, em busca de melhores condições de trabalho, mas depois de terminado o ciclo laboral, tentaram regressar ao seu cantinho para terminarem os seus dias em paz. Acontece que já nem todos possuíam esse recanto sagrado, o que os deixa numa posição desconfortável. Esta situação é posta em relevo naquele sentido, não de enxovalho ou de recriminação, mas apenas em homenagem àqueles que querendo, já não podem voltar ao seu torrão.
Entendemos ser um dever de cidadania, chamar a atenção para as belezas naturais dum concelho que, dadas as suas características, fica um pouco à margem do desenvolvimento dito moderno, uma vez que tem particularidades invulgares (para outros voos) dignas de serem realçadas, ao ponto de ocuparem um lugar de destaque, se forem devidamente promovidas como imagem de marca.
São as características próprias duma região que a singularizam. Mas temos de ser nós a preservar e valorizar esse nosso património, que pode ser uma mais valia na captação de visitantes.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 23/04/2009

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terça-feira, 21 de abril de 2009

Adriano Pacheco lança novo livro "O Rasto dos Barrões"

No próximo dia 9 de Maio, sábado, pelas 16 horas, o auditório da ADIBER, em Góis, irá ser o palco do lançamento de mais um livro. O conceituado escritor Adriano Pacheco apresentará a sua nova obra intitulada. "O Rasto dos Barrões".
Com prefácio de João Coelho e capa do Mestre H. Mourato, os textos baseiam-se no fenómeno migratório dos beirões da Beira Serra.
A obra que agora será lançada, foi editada pela Associação de Desenvolvimento Integrado da Beira Serra, que convida todos para estarem presentes no lançamento do novo livro, que muito enriquecerá o espólio cultural do nosso concelho.
in O Varzeense, de 15/04/2009

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

A Freguesia do Cadafaz vai ter a sua festa a 18 de Abril

Depois do estrondoso êxito alcançado pelas participações das Freguesias de Vila Nova do Ceira, de Alvares e ultimamente pelo Colmeal, nas comemorações do octogésimo aniversário do regionalismo goiense que tiveram lugar na Casa do Concelho de Góis, esperamos agora pela participação da Freguesia do Cadafaz, cuja Junta de Freguesia já comunicou a sua inteira disponibilidade para realizar e liderar o evento, dentro da sua concepção que, ao que sabemos, ser de grande inovação. Far-se-á, por isso, acompanhar de todas as pessoas que a quiserem acompanhar.
A Conselho Regional tem vindo acompanhar, a par e passo, o evoluir dos preparativos desencadeados pelos membros desta Junta, aliás como o fez aquando da representação das freguesias acima referidas, tendo, para isso, feito deslocar alguns dos seus dirigentes àquela região com a finalidade de prestarem todo o apoio logístico e organizativo, colocando as instalações da Casa à sua inteira disposição. Todo este esforço vai no sentido de animar e incentivar os organizadores, dando-lhes uma "forcinha" para que esta festa seja o sucesso desejado.
Pela informação que tem chegado ao Conselho Regional, estamos seguros de que a Junta da Freguesia do Cadafaz vai desenvolver todos os esforços para que o seu desempenho não fique aquém das outras sessões já ocorridas. É com agrado que registamos o entusiasmo e empenho que tem chegado até nós, esperamos, por isso, uma grande e forte adesão a este evento, por parte das gentes da Freguesia do Cadafaz sediados na capital e em qualquer parte do país, que sempre souberam corresponder aos anseios e propósitos da sua região.
À semelhança do enorme fervor regionalista, desencadeado por todas as outras embaixadas regionais que chegaram até nós, a Casa do Concelho de Góis espera, desta feita, ter casa cheia de gente da nossa região no dia 18 de Abril próximo, onde a animação, o colorido e o convívio, a fotografia e o artesanato, bem como os petiscos regionais e os bons vinhos, vão ali ter lugar para contentamento de quem quiser vivenciar esta alto momento.
O Conselho Regional não quer deixar passar esta data sem evocar e homenagear os altos serviços prestados pelo movimento regionalista, ao povo desta região e pretende agora estender esta prática a todo Concelho de Góis, como forma própria de o envolver neste sentimento que a Casa se empenhou nesta gigantesca tarefa para assinalar os oitenta anos de luta por melhores condições de vida. Trata-se apenas de uma pequena homenagem, da sua parte, a tão grande e meritório serviço prestado à região.
Com esta iniciativa envolvendo todas as forças vivas do concelho, esperamos deixar uma marca simbólica que ajude a unificar todo o espaço concelhio que tão disperso se apresenta.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 9/04/2009

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sábado, 21 de março de 2009

As candidaturas à autarquia goiense

As eleições autárquicas ainda vêm longe, mas já são conhecidos alguns candidatos às mesmas, assim como, já são visíveis as movimentações à volta do assunto que, por via disso, se vão posicionando no ponto de partida, dando mostras de empenhamento na participação da escolha dos próximos governantes do poder local. O que indicia, de algum modo, uma campanha algo combatida para a eleição dum candidato que se deseja com propensão para uma governação inovadora. Esperamos também que elas decorram sem atribuições.
Em princípio, as eleições apresentam-se aos munícipes como uma nova esperança, uma luz brilhante, ou quem sabe se uma lufada de ar fresco no edifício da governação concelhia. As candidaturas conhecidas desencadeiam esse desejo de maior participação nos debates políticos, de melhor clarificação nos programas e nas prioridades dos candidatos: criando à sua volta um núcleo de massa crítica colaborante, que tanta falta tem feito à nossa empobrecida região. Mas não estamos a confundir essa massa crítica com alguém que se dedica a debitar polémica gratuita, ou palavreado fácil sem qualquer proveito ou inovação. Não, desse tipo já estamos muito bem servidos.
Deseja-se acima de tudo, que os debates sejam fecundos e mobilizadores de uma melhor consciência da actual realidade, uma melhor selectividade dos problemas mais prementes com prioridades estabelecidas, recorrendo ao contributo das colectividades para implementação dum projecto mobilizador que tanta falta tem feito, dadas as particulares características dum concelho com largo território, disperso e sem identidade, o que não facilita a governação, nem a mobilização dos munícipes. Mas diz-nos a experiência, que a tendência normal nestas situações, se inclina sempre para a promessa fácil e sonante do cimento, ou do alcatrão, ou para a politiquice das acusações pessoais que, pode ajudar a libertar a bílis, mas deixa no ar um tom "popularesco" e pouco civilizado.
Deseja-se também que os candidatos se empenhem nesta missão com seriedade, que encarem os problemas do concelho com realismo e com conhecimento de causa, já que estas eleições se decidem pelo carisma pessoal e pelo conhecimento que cada candidatos tiver das populações do concelho. A máquina partidária, neste caso, pouco ou nada poderá ajudar, tendo em vista o intrincado cenário em que uma das candidaturas emergiu.
É por demais importante que os candidatos retomem uma postura de dignidade e de credibilidade que a política, como arte de governação, deve conter, postura essa que tão arredia tem andado do país. A política, dentro do seu exercício, deve ser sempre encarada como um serviço público imbuído de toda a entrega e dedicação. Quando alguém se propõe a exercer tal missão dentro deste propósito, tudo será mais consentâneo com o seu natural encaminhamento e, assim, só pode ganhar a admiração dos seus munícipes.
Adriano Pacheco
in O Varzeense, de 15/03/2009

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Colmeal em festa na Casa do Concelho de Góis

Enquadradas nas comemorações do octogésimo aniversário do regionalismo goiense, ocorreram no dia 31 de Janeiro, na Casa do Concelho de Góis, as festividades representativas da Freguesia do Colmeal, organizadas pela União Progressiva, em colaboração com a Junta e com todas as restantes colectividades desta Freguesia.
Como é do domínio público, trata-se dum evento cultural que tem vindo a ser apresentado pelas freguesias do concelho, projectado e coordenado pelo Conselho Regional, cujo sucesso ascensional tem ultrapassado as melhores expectativas, tendo-se, desta feita, atingido êxito memorável, quer em exposição de artesanato regional e de fotografia, quer pelo conteúdo do seu programa, quer ainda pela avultada assistência que registou, não esquecendo que se trata duma região em acelerada desertificação.
Mais do que falar da evolução do programa e das belas prestações que foram ocorrendo, somos - por razões emocionais - impelidos a descrever o que os nossos sentidos foram captando ao longo de mais de quatro horas de espectáculo, durante o qual nos detivemos perante gentes do Portugal profundo, tão igual a nós onde tudo cheira a povo verdadeiro, de mãos calejadas, de quem atitudes da mais pura sinceridade, quer através duma fotografia que nos toca pela sua autenticidade, quer através duma saudação de alguém que nos cumprimenta com alegria, quer ainda pelas manifestações folclóricas ancestrais, inocentes e genuínas.
O povo genuíno tem este lado encantador e misterioso da vida e quando não se descaracteriza, tem aquela matriz homogénea, igualitária, onde o mais humilde e simples cidadão tem uma prestação tão apreciável como a do mais destacado intelectual.
O exemplo vem-nos da Tocata, tal como dos contributos de escalões diversos que não destoam, antes se complementam. Não se confrontam, antes de unem. Não se destacam, antes de uniformizam na mais completa harmonia, o que nos mereceu a melhor das atenções pelo seu empenhamento e entrega. Destaque-se a geração jovem bem representada pelo Henrique Miguel Mendes.
Toda a evolução da festa nos mereceu o melhor interesse, numa Casa (salão, corredores e cave) que se tornou pequena para acolher duas a três centenas de pessoas. Por nos parecer bastante interessante, destacaremos a projecção de fotografia, algo criativo a apropriado para nos mostrar o que de mais belo existe em cada aldeia. Não só pelas imagens de cor e beleza, não apenas pelos recantos culturais e recortes admiráveis das serranias, mas pelo valor apreciável dum trabalho, em grupo, que transmitiu uma ideia segura de união e solidariedade, que já vai rareando nos tempos que decorrem.
Estamos a falar dum concelho extenso e disperso, pobre de recursos, mas muito rico de gentes e tradições multi-culturais onde a solidariedade, o amanho das terras e a pastorícia formam uma base de conhecimento inigualável, mas que deixa a nu um outro campo de necessidades, criador da demanda para outros destinos, onde emergiu o regionalismo pulverizado de saudade, tema, aliás, bem tratado na intervenção da Dr.ª Lisete Matos.
Se mais nenhum interesse tivesse este encontro com a história, bastar-nos-ia o impacto que teve ao reacender... da brilhante chama regionalista nesta Freguesia, onde, ao que nos foi dado a conhecer, os níveis de entusiasmo e relação de entreajuda estavam quase a roçar o desalento! Razão pela qual o Conselho Regional dá por muito bem empregue o esforço que tem vindo a desenvolver e espera concluir o programa que se propôs cumprir.
Por mera falta de espaço, ficarão sem menção outros assuntos de relevante interesse, apenas indicaremos a seguir os elementos da Mesa de Honra. Começando pelo destacado e entusiasta dirigente da União Progressiva, Dr. António Domingos Santos, Dr.ª Lisete Matos e os autarcas: Presidente da Junta de Freguesia Henrique Brás Mendes, Sr.ª Vereadora D. Helena Moniz, Presidente da Assembleia Municipal Sr. José Pereira de Carvalho; bem como a representante da ADIBER Dr.ª Maria de Lurdes Castanheira e os anfitriões Sr. José Santos e Dr. Luís Martins. Todos os elementos se mostraram encantados com o êxito do evento.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 19/02/2009

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ecos da caminhada do regionalismo Goiense

Ainda ribombam, por essas serras fora, os ecos dos festejos realizados pela Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira, na Casa do Concelho de Góis, que tão boa imagem deixou de si ao homenagear, com todo o merecimento, os fundadores pioneiros deste movimento, em representação da Freguesia de Alvares. Já a União Progressiva da Freguesia do Colmeal e congéneres da mesma freguesia, se encontram envolvidos de grande entusiasmo para uma representação digna dos seus pergaminhos, que não os deixe atrás das outras freguesias já representadas.
Face aos sinais dos preparativos em marcha que vão chegando ao nosso conhecimento e dos representantes envolvidos nesta demanda, é de esperar uma prestação ao nível das anteriores por parte dos regionalistas desta Freguesia, agendada para o dia 31 de Janeiro próximo. Esta energia, já conseguiu uma dinâmica difícil de conter. Activou, de forma visível, o fervor serranos levando-o ao mais alto esplendor e reacendeu, de novo, a chama regionalista capaz de brilhar e tocar os colmealenses, ao ponto de não deixar ninguém indiferente. Este movimento, com os seus altos e baixos, tem vivido sempre do entusiasmo que lhe é incutido por alguém que lhe tome a sua dianteira.
Este reacender da chama regionalista, tal como o "renascer da Fénix", pode ter o impacto desejável numa época de triste apatia, para não dizer de total desânimo, quando as vozes menos confiantes apontavam um baixar de braços assustador e os descrentes habituais ditavam já o fim do movimento que ainda tem um largo caminho a percorrer.
Será bom entender que, apesar da posição que em tempos defendemos, o regionalismo terá sempre boas razões para existir enquanto formos um povo migrante, pois foi dentro desta sua condição que ele nasceu e se ergueu. A sua energia positiva está por isso no seu seio.
Face aos augúrios promissores, ditados pelos ecos do entusiasmo chegados até nós, o Conselho Regional regojiza-se pelos resultados alcançados e por outros que estão em marcha, promovendo a vinda dos regionalistas goienses à Casa Mãe, em articulação com as colectividades e Juntas de Freguesia, contribuindo assim para um sentimento de unidade tão necessário num Concelho extenso e disperso, e uma maior visibilidade deste regionalismo que tanto merece.
Com esta iniciativa implementada no decorrer do presente ano, o Conselho Regional quais dar um contributo sério e abrangente para um novo despertar de ânimos nos habitantes dum Concelho deprimido, pobre de recursos e quantas vezes ignorado, na esperança de que uma nova luz resplandecente vá surgir.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 22/01/2009

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Silêncio dos que não voltaram

Em tempos fizemos uma abordagem ao tema "desertificação", dando pleno relevo à inquietante questão que assenta na ausência "dos que partiram e não voltaram".
Tomando como suporte o princípio de que o serrano volta sempre ao aconchego da sua terra-natal, tentamos agora analisar as várias razões que podem ter contribuído para o longo afastamento, no propósito de encontrar, entre elas, explicações pertinentes que ajudem a encontrar uma nova luz.
Das razões que estão na base do abandono das suas aldeias, em busca de outras paragens, todos nós as conhecemos melhor ou pior, consoante os casos, saltando desde logo o velho argumento de que "foram à cata duma vida melhor", com tudo o que essa ideia envolve de empenho, apego ou, pelo contrário, desamor. Acontece que essa realidade está dita e redita, para não dizer estafada, a qual já entrou num ciclo fechado, tendo em conta as vicissitudes que a conhecida globalização se encarregou de pôr no nosso caminho. É bom ter isto presente.
Alargando este conceito à presente abordagem, na tentativa de percorrermos vertentes menos expostas do problema, gostaríamos agora de colocar questões que, vá-se lá saber porquê, outros preferem ignorar:
-Se a vida laboral hoje é feita de instabilidade e de incertezas frequentes, situação que implica maior disponibilidade num raio de acção mais alargado, por que será que aqueles que já atingiram a sua aposentação não procuram, com mais frequência, as suas raízes ou os pontos de partida, deixando aos mais novos o espaço livre para melhor circulação? Deste modo dariam mais uso às suas casas desabitadas nas aldeias abandonadas e os grandes centros deixariam de ter pessoas que se atropelam umas às outras.
-Por outro lado e por mais incompreensível que possa ser, é deveras preocupante o modo como são recebidas pessoas que tentam regressar às suas aldeias, na esperança de encontrarem um meio humanizado e acolhedor para poderem passar os seus últimos dias em paz e afinal são olhadas de esguelha, de forma hostil, como que sendo estranhas ao meio, em vez de serem bem recebidas.
Seria bom que todos entendêssemos que, para se ter as pessoas de volta à aldeia, torna-se necessário o bom acolhimento, onde elas se sintam bem-vindas para se poderem integrar na comunidade de forma civilizada e igualitária e não excluídas. Com isso ganharão todos: a aldeia e a região. Não basta gritar aos sete ventos que o interior está cada vez mais despovoado, importa, dentro das limitações existentes, saber criar condições sociais para que essa verdadeira calamidade seja, de pouco em pouco, debelada. Hoje, já não é apenas o número de casas fechadas que assusta, é muito mais que isso, é a falta de sociabilidade, de calor humano e duma vida comunitária intensa.
Na falta de gente jovem com capacidade produtiva; na mingua de criação de postos de trabalho remunerados; na ausência de outros eventos sócio-económicos; a solução a breve trecho, pode passar por atrair gente aposentada ainda com capacidade de gerar nas aldeias alguma dinâmica capaz de lhe dar vida social. É triste passar pelas suas ruas e encontrar apenas cães abandonados.
Com pequenas soluções que estão ao alcance de todos, incluindo as colectividades, também se podem criar nichos dinamizadores, capazes de evoluírem para grandes resultados, só é preciso disponibilidade e criatividade nos eventos culturais e outros. A época do rei "Povoador" já lá vai há muito tempo.
Adriano Pacheco
in Jornal de Arganil, de 1/01/2009

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domingo, 9 de novembro de 2008

Os Caminhos da Desertificação

Longe vão os tempos em que a vida na aldeia era vivida em comunidade de forma muito intensa, quer no contacto do dia-a-dia, quer na comunhão e convivência no seio de gerações onde qualquer pretexto servia para a ocupação dos poucos tempos livres. Verdade seja dita que nem todas as actividades estavam talhadas para o desenvolvimento cultural, forma apropriada ao crescimento harmonioso do ser humano, mas apenas se direccionavam para a diversão lúdica, bálsamo desejado ao alívio do cansaço físico.
Actualmente e tendo em conta a distância que o tempo nos separa da fase da nossa adolescência, observamos com alguma inquietação que, de várias famílias numerosas então existentes, compostas por seis ou sete filhos, apenas um ou dois membros dessas famílias mantêm ligação assídua com o seu torrão natal, o que deixa um enorme vazio no clã que antes era formado por um lar de grandes dimensões, onde a alegria marcava a sua presença.
Face a este problema salta-nos a seguinte questão: onde estão os restantes membros dessas famílias? Por onde se quedam sem darem sinal?
Para esta estranha e fria ausência que o devir dos tempos nos trouxe como castigo, contribuíram a falta de várias condições de desenvolvimento que esta pobre região não podia oferecer, deixando assim fugir a força de muitos braços de trabalho, cuja falta hoje bem se faz sentir. Mas como se pode julgar a escolha fez a sua vida, se a própria aldeia ou região apenas lhe podia proporcionar trabalho rude, violento e mal humorado? Numa época em que noutros pontos do país a oferta do mercado de trabalho era bastante mais aliciante, com a possibilidade dos filhos poderem aumentar os seus conhecimentos!
Aperta-se-nos a alma ao encararmos o estado desolador de despovoamento em que esta região se encontra - situação que faz jus à tendência verificada no interior do país que nos coloca perante a soberba mancha de pinhal disseminado nestas vastas serranias cheias de potencialidades, mas quase despovoadas. Por outro lado, quem é que tem moral para apontar o dedo àqueles que não tiveram alternativa à escolha que fizeram, numa fase em que a migração era o convite mais aliciante para uma vida melhor e nada nem ninguém olhava para o interior do país?
Hoje facilmente se encontram teóricos na imprensa a esmiuçar os erros das opções tomadas por cada um, com os prós e os contras ali à flor da pele, como duma profecia se tratasse. Ideia que não pode ir além duma opinião vazia de conteúdo de quem nunca sentiu o sabor amargo duma gota de suor, ou do arfar arquejante na escalada dos montes aquando da recolha da resina, quando mais nenhuma saída se perfilava no horizonte para uma vida menos penosa. É sempre fácil debitar palpites para quem não conheceu, por dentro, a revolta daqueles que sentiram os caminhos vedados, o muro intransponível do obscurantismo, ou o sabor amargo duma lágrima debulhada pelo destino.
Analisar a origem e o percurso que levou esta região à sua desertificação, em todos os seus contornos, ou criticar a atitude de quem calcorreou os seus caminhos, é um tema recorrente e de fácil abordagem; difícil se torna fazê-lo de forma consciente e com conhecimento de causa! Para se avaliar, de forma correcta, as várias motivações desta gente que esteve no cerne da questão, torna-se necessário conhecer as dificuldades que o desenraizamento acarreta e o sofrimento de ter de deixar os haveres e os seus familiares em idade já avançada.
Ninguém sai da sua terra com um sorriso nos lábios, mas sim com o coração despedaçado, isso apenas o saberá quem já passou por esta situação e agora olha para trás e conclui que não havia outra alternativa.
Adriano Pacheco
in O Varzeense, de 30/10/2008

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