sábado, 31 de outubro de 2009

Final do Campeonato do Mundo de Corridas de Aventura nas Aldeias do Xisto

As Aldeias do Xisto são um dos principais patrocinadores da Final do Campeonato do Mundo de Corridas de Aventura, a ser disputada no nosso país. A maior parte desta prova acontece no território das Aldeias do Xisto, que oferece condições ímpares para a realização deste importante evento a nível internacional. Um momento inesquecível para o calendário desportivo em Portugal.

De 5 a 15 de Novembro as Aldeias do Xisto presenciam emoções fortes. As Aldeias do Xisto são um dos principais patrocinadores deste mega-evento, que promete atrair muito público e encantar os participantes.

A maior parte da Prova disputa-se assim neste magnífico território, que para além de ser excelente para este tipo de desporto, possui boas infra estruturas de apoio. O que, aliado a paisagens deslumbrantes, se torna o cenário ideal para uma disputa em que rivalizam os melhores atletas e as melhores equipas a nível mundial. Parques Naturais, Áreas de Protecção Especial, Monumentos Classificados e um vasto Património Cultural serão alguns dos segredos que os atletas irão descobrir ao longo dos seis dias do ARWC Portugal 2009!

Este será um desafio onde a técnica dos atletas e o trabalho de equipa é levado ao extremo, sendo certos os momentos em que a adrenalina andará ao rubro. Sempre com muita acção. A 7ª edição do Campeonato do Mundo de Corridas de Aventura será seguramente a mais disputada de sempre com a presença confirmada de praticamente todos os podiums de todas as provas de qualificação da Liga Mundial.

Programa
Dia 9 de Novembro
10h30 - Partida, no Castelo da Lousã
9h às 11h - Gondramaz
10h às 13h - Candal
10h30 às 13h30 - Cerdeira
11h30 às 16h30 - Aigra Velha
12h às 18h30 - Pena
18h às 5h - Fajão
21h às 8h - Benfeita

Dia 10 de Novembro
00h às 8h - Benfeita (cont. do dia anterior)
9h à 1h - Barroca
14h às 7h - Martim Branco

11 de Novembro
00h às 7h - Martim Branco (cont. do dia anterior)
17 às 10h - Sarzedas

12 de Novembro
00h às 10h - Sarzedas (cont. do dia anterior)
5h às 8h - Foz do Cobrão
7h às 11h - Figueira
9h às 2h - Água Formosa

Informações
ADXTUR
Tel.: (+ 351) 275 647 700 / Tlm: 960 101 873
info@aldeiasdoxisto.pt
Bruno Ramos / Miguel Geraldes

ARWC
Tel.: (+ 351) 214 862 163
Tlm.: (+351) 919 804 493
info@portugalxpdrace.com
www.arwc2009.com/pt

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

AX Trail - Corrida de Montanha

Nos próximos dias 26 e 27 de Setembro, nas aldeias de Góis e da Lousã, o AX Trail regressa com um novo formato e novos percursos seguindo à risca o conceito que o define: trail em estado puro. Em simultâneo com as provas irá decorrer o Caminho do Xisto, para que possa trazer a sua família e passar um fim-de-semana em cheio nas Aldeias do Xisto. Não falte!

Em simultâneo com as provas poderá optar por fazer o percurso pedestre do Caminho do Xisto, para que possa trazer a sua família e passar um fim-de-semana em cheio. Não perca!
Este é um percurso pedestre na zona envolvente dos percursos. Este percurso disponibiliza aos familiares, amigos dos atletas ou a todos os interessados, uma actividade acessível e um motivo para a visita à região.

Esta edição do Ax Trail percorre caminhos antigos muito técnicos e alguns estradões. O forte relevo do terreno, os Penedos de Góis e as Aldeias do Xisto da Pena, Comareira e Aigras Nova e Velha misturam-se em paisagens de cortar a respiração.

Dia 27 de Setembro o percurso passará pelas Aldeias do Xisto do Talasnal, Chiqueiro e Casal Novo, pelo Castelo de Arouce, não faltando sequer uma incursão na Ribeira de S. João.

A pensar naqueles que queiram conhecer um pouco mais da Serra da Lousã, realizam-se em simultâneo os Caminhos do Xisto, percursos pedestres que, com o apoio de guias conhecedores da área, lhe mostrarão o património e as riquezas naturais desta Serra, tornando a sua caminhada numa experiência mais enriquecedora.

Para saber mais, clique Aqui.


Organização
Go Outdoor
(+351) 239 561 392 / 916 292 279
info@go-outdoor.pt
www.go-outdoor.pt
in www.aldeiasdoxisto.pt

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Aigra Velha

Fotografia de rocroi1643

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sábado, 18 de julho de 2009

Aigra Velha


Fotografias de António Vieira

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terça-feira, 7 de julho de 2009

Aigra Velha

Fotografia de rocroi1643

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Papas de água com mel

Receita obtida junto do Sr. André Neves Claro,
Aigra Velha, Góis


- folhas de nabo
- farinha de milho
- mel

Coloca-se numa panela água com mel e deixa-se ferver. Depois juntam-se as ramas dos nabos e deixa-se ferver de novo. Na altura em que as folhas de nabo estão cozidas, junta-se farinha de milhos (muitas vezes não era peneirada) e vai-se mexendo para não agarrar à panela. Estas papas comiam-se quentes, nos dias frios. As sobras eram comidas no dia seguinte depois de aquecidas na frigideira ou sertã e uma vez por outras podiam ser acompanhadas por sardinhas. Quando estas papas não levavam mel no acto de serem feitas, podiam posteriormente serem servidas adicionando-lhes mel por cima.
in Sabores da Aldeia

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Lombo de porco na talha

Receita obtida junto do Sr. André Neves Claro,
Aigra Velha, Góis


- lombo de porco
- banha de porco
- alho
- azeite
- colorau
- louro
- sal
- vinho (morangueiro)
- 1 c. sopa de aguardente

Numa caçoila colocam-se pedaços de lombo de porco temperados com alho, azeite. colorau, louro (sem bicos nas pontas das folhas), sal, vinho. No antecedente era utilizado o denominado vinho morangueiro e aguardente. O lombo de porco coberto pela banha vai ao forno de lenha, já aquecido. Retirado quente, o lombo de porco conjuntamente com a banha é colocado na talha e guardado de um ano para o outro. Conforme a precisão ou a necessidade é cortado um bocado desse lombo e passado na frigideira conjuntamente com a banha. Pode-se juntar um ovo batido por cima misturado com chouriço. É servido em cima de fatias de broa e acompanha com vinho. Raramente acompanha com batatas.
in Sabores da Aldeia

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domingo, 10 de maio de 2009

Trutas fritas em molho de escabeche

Receita obtida junto do Sr. André Neves Claro,
Aigra Velha, Góis


- trutas
- alho
- azeite
- cebola
- louro
- pimenta
- sal
- salsa

Amanham-se as trutas e temperam-se com sal e pimenta e fritam-se em azeite que se aproveita para a cebolada. Quando a cebola ficar meio frita, junta-se o vinagre e a salsa e regam-se as trutas com este molho. As trutas ficam de escabeche oito dias. Servem-se com batatas cozidas.
in Sabores da Aldeia

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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Apresentação do Projecto "Tradições do Xisto"

No Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio de 2009, a Câmara Municipal de Góis em parceria com a Lousitânea apresentam um projecto único e inovador para as 4 Aldeias do Xisto de Góis (Comareira, Aigra Nova, Aigra Velha e Pena).

Este Projecto denominado "Tradições do Xisto" tem 2 grandes objectivos:
- Contribuir para a fixação dos habitantes locais, valorizando as infra-estruturas rurais e etnográficas, aumentando a sua auto-estima, melhorando as condições de vida e criando postos de trabalho nestas aldeias através da valorização turística dos espaços a intervir;
- Atrair nova população ou regresso de população que resida noutros pontos do pais e do estrangeiro, conseguindo assim estancar o processo de desertificação humana e cultural que sofrem estas 4 aldeias.

Paralelamente, este projecto será uma experiência piloto em toda a rede de Aldeias do Xisto. Poderá mesmo vir a ser o modelo de desenvolvimento que poderá ser implementado em todas as aldeias da rede.

O projecto "Tradições do Xisto" implica a criação de um Núcleo Vivo das Aldeias do Xisto de Góis, Ecomuseu das Aldeias do Xisto e da Serra da Lousã. Existirá um Museu das Tradições do Xisto (núcleo-sede) e 20 núcleos interpretativos:

- Aigra Nova: 1 - Casa tradicional serrana; 2 - pocilga, palheiro, capril e galinheiro; 3 - forno e alambique comunitários; 4- eira e palheiro comunitários; 5 - núcleo do mel; 6 -ervas tradicionais autóctones; 7 - lavadouro e fonte pública
- Aigra Velha: 8 – forno e alambique comunitários; 9 – capril e palheiro tradicional;
- Comareira: 10 - adega e lagar de vinho; 11 – alminha
- Pena: 12 – moinho de cima e de baixo do Poço da Lontra; 13 – forno e alambique comunitários; 14 - alminha; 15 – núcleo museológico da família neves; 16 – aglomerado de construções antigas (etno-arqueologia); 17 - núcleo dos fósseis marinhos

Em todas as aldeias existirão os núcleos das Hortas Tradicionais (18) e dos Soutos Centenários (19).
Na aldeia de Aigra Nova existirá uma reserva de burros para passeios turísticos (20).
Na aldeia de Aigra Velha existirá um parque de campismo rural (21).

Os turistas poderão visitar estes núcleos autonomamente, de forma guiada com monitores da Lousitânea ou com os próprios habitantes locais e através de programas activos como a alambicada, o atelier da broa e do queijo de cabra, o magusto e outros programas em que os visitantes podem participar nas actividades diárias da comunidade.


Programa:

10h00 - Animação na Aldeia –
4 animações de recepção
- Concentração de cabras das aldeias.
- Oficina da broa
- Mesa de estacaria
- Bancada de degustação do mel das aldeias com os utensílios e com explicação dos habitantes locais

Estas actividades permitem um contacto com a cultura e etnografia local

11h00 - Cerimónia oficial de apresentação pública - Loja da Aldeia
Com a presença do Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Góis - Sr. José Girão Vitorino, Exmo. Sr. Presidente da Lousitânea, Dr. Paulo Silva, Exmo. Sr. André Claro.
Convidados:
Exmo. Sr. Dr. Alfredo Marques, Presidente da CCDR-C, Exmo. SR. Presidente da Entidade Turismo do Centro, Dr. Pedro Machado, Exmo. Sr. Presidente da ADXTUR, Dr. Paulo Fernandes.

11h30 - Visionamento do documentário “Núcleo Vivo das Aldeias do Xisto”.

12h – Brinde de Licor de Mel e Licor de Castanha.


Lousitânea - Liga de Amigos da Serra da Lousã
Rua dos Bois - Aigra Nova
3330-222 GÓIS
Tel/fax: 235778644
lousitanea@sapo.pt
www.lousitanea.no.sapo.pt

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sopa de abóbora

Receita obtida junto do Sr. André Neves Claro,
Aigra Velha, Góis


- abóbora porqueira
- carne de porco já passada de sal
- feijão
- toucinho

Depois de ter sido demolhado, põe-se o feijão a cozer e logo que ferva, junta-se a abóbora cortada em pedaços pequenos, a carne de porco e o toucinho. Serve-se com broa e o toucinho.
in Sabores da Aldeia

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terça-feira, 5 de maio de 2009

Sopa

Receita obtida junto do Sr. André Neves Claro,
Aigra Velha, Góis

- feijão
- batata
- carne (toucinho)

Coloque numa panela com água suficiente para a sopa, o feijão que esteve a demolhar no dia anterior. Deixe ferver um bocado, junte a batata e o toucinho e sirva. Acompanha com broa e vinho - vinho morangueiro ou americano, em tempos ido.
in Sabores da Aldeia

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domingo, 1 de março de 2009

Diário de viagem no concelho de Góis

DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE EM FINAL DE FEVEREIRO DE 2008 INICIOU EM SAGRES A TRAVESSIA A PÉ DE PORTUGAL.

CORTA FOGO EM DIRECÇÃO AO CONCELHO DE GÓIS


POVORAIS (GÓIS) VISTA DO CORTA FOGO



A CAMINHO DE POVORAIS



CAMINHO ENTRE TREVIM E POVORAIS



NO TOPO DA SERRA, DO LADO DO CONCELHO DE GÓIS



CASA DE POVORAIS (GÓIS)



"PENA? É POR ALI!" (EM POVORAIS, GÓIS)



POVORAIS (GÓIS)



PENA (GÓIS) VISTA DO CAMINHO DAS FRAGAS



PENA



PENA- AIGRA VELHA (GÓIS)




A CAMINHO DE AIGRA NOVA (GÓIS)



AIGRA NOVA LÁ EM BAIXO



COMAREIRA




FÁBRICA DE PAPEL ABANDONADA EM PONTE DO SÓTÃO (GÓIS)




PONTE DO SÓTÃO (GÓIS) VISTA DA ESTRADA PARA VILA NOVA DO CEIRA



VILA NOVA DO CEIRA, 16 DE OUTUBRO DE 2008



VILA NOVA DO CEIRA-GÓIS A 16 DE OUTUBRO DE 2008




NA SERRA DA LOUSÃ

O homem velho tinha um boné vermelho na cabeça. Cortava rente pinheirinhos inofensivos junto a uma Ford encarnada gasta e sumida, a parte traseira semeada de resina e pedaços desfeitos de toros de madeira. A placa de matrícula era daquelas antigas, de fundo preto e letras e números brancos. Avistei-o do corta-fogo, a uma distância suficiente para não que me avistasse a mim. Quando desci a serra, já a luz ía a meio, cortada em diagonal pelas copas dos pinheiros plantados em filas muito certas e correctas. Passara por uma placa onde lera “maternidade das árvores” e calculara que aquela fosse uma parcela semeada de filhotes, fruto do labor de quem ainda ama a montanha.
O homem velho já estacara e se plantara em frente à dianteira do camião, uma expressão de desconfiança e interrogação no rosto. Não sorriu mas também não foi deliberadamente hostil. “Você anda perdido?” Eu vira-me no topo da Serra da Lousã entre as antenas de comunicações e a pista vazia e solitária do Trevim por volta das quatro da tarde e aventurara-me a descer o corta-fogo que rasgava a encosta como um tobogan enlameado. “Daqui para baixo você não vai a lado nenhum, é só matagal, silvas e pedras”.


Eu queria alcançar as bandas de Góis. Partira de Castanheira de Pêra nessa manhã. Em Outubro, a piscina das Rocas, onde em Agosto milhares de pessoas brincam nas ondas artificiais, está posta em sossego. Não é mais uma piscina, é antes um lago parado e tranquilo, umas palmeiras azuis holywodianas a contradizer todo o restante cenário serrano. Abalei dali sem grande vontade de ficar. “Então, não se faz nada?”, perguntou um de dois varredores numa travessa.
O caminho em Outubro faz-se de folhas amareladas e avermelhadas das vinhas e forra-se das cascas espinhosas das castanhas. Cheira a mosto sempre que me aproximo de uma casa. De vez enquanto alguém assoma a uma janela ou cruza uma esquina. É quase meio dia quanto alcanço o Coentral, o último posto humano antes da liberdade suprema da serra.
Os homens, todos em idade de reforma, rodam os copos no café da aldeia, insultam-se alegremente- “ainda era gajo para te ir ao rabo”-e conversam sobre a castanha. “Eu vendo castanha”, diz um, o mais falador e o que entorna mais líquido pelas goelas. “ Vendo castanha. Não é essa merda que aparece lá na feira de Castanheira”. Um aldeão expectante solta umas fumaças junto à porta. Escuta a conversa e goza o sol primaveril de um Outono reluctante. Não chove, não faz frio, é a primavera na serra em Outubro. Um fio curto de água a lamber as rochas é tudo o que resta da cascata do Coentral. “A ribeira está quase seca”, lamenta uma mulher.
O outro a dar-lhe com a mesma lengalenga. “A minha castanha é castanha. E não a vendo a dois euros como alguns. Um euro e meio e há um aí que não leva nenhuma este ano”. Faz-se silêncio, um vazio calculado para que o outro homem possa perguntar “quem?”. “O António. Encomendou-me dez quilos ano passado e ainda cá faltam os 15 euros. Este ano vá pedir a outro”.
Dali para cima são mais uns cinco ou seis quilómetros até à Capela de Santo António da Neve e aos neveiros. Reza a História que terá sido o neveiro da casa real que a mandou construir no século XVIII, de seu nome Júlio Pereira de Castro, para que as pessoas que trabalhavam então nos neveiros pudessem assistir à missa. Ali não há ninguém, nada a não ser um silêncio perturbante. Calco pequenos troncos entre ervas macias e verdes, respiro o ar puro e absoluto da Lousã e espreito os neveiros vazios. São redondos, em pedra, grandes o suficiente para armazenar ali durante o inverno a neve que abastecia no Verão a corte e a “Casa das Neves”, o Café Martinho da Arcada, em Lisboa.
Um pouco mais acima fica a pista de aviação do Trevim. Alguém, amante da natureza, escreveu em defesa dos veados livres na pequena casa assombrada que dá assistência aos aviões na época dos fogos. Agora, pode-se pular, dançar, cantar, inalar com todo o tempo do mundo os ares que cruzam a fronteira invisível do concelho de Castanheira de Pêra e o de Góis.
O homem velho do boné vermelho vira-me a descer furiosamente o corta-fogo que rasga a encosta desde o cabeço e na aproximação ao camião, estacou. Sabia que dali o incauto caminhante não passava mais. “Para as bandas de Góis? Você vai ter que andar muito. Está a ver aquela aldeia ali do outro lado, chama-se Povorais. Siga por esse caminho aí à direita, sim, esse aí e vá sempre em frente mas vai ter que andar muito”.
Caminhei até me doerem as barrigas dos músculos das pernas. Um solitário alcoolizado dormitava junto a umas placas tortas a indicarem Povorais para um lado e Góis para o outro. “Bocê num sabe, bocê num sabe…Góis é loonge”. A boca parecia um saco de batatas. Segui o conselho do homem velho. Desisti da estrada de asfalto e segui de novo pela terra batida. Povorais é um pequeno amontoado de casas perdido no verde da encosta.
“Você agora vai sempre em frente até à Pena, sempre em frente”, gritou uma mulher. “Vai sempre em frente”. Cocei a cabeça à medida que o tapete verdejante se foi estreitando. A princípio, perdi-me junto a um galinheiro e umas hortas. Mais tarde, a trilha dividiu-se em três. Sempre em frente? Calculei a aldeia da Pena do lado direito. Dei por mim atolado num carreiro enlameado, entre fragas. Até que ela apareceu, a Pena, o casario muito lá em baixo numa correnteza encosta acima, os telhados muito vermelhos, vozes de crianças a ecoarem no vale.


Seriam umas sete da tarde quando cruzei a ribeira da Pena, os penedos já cobertos pela sombra. “Café? Só no Esporão, mas ande depressa, ainda vai ter que andar bem até ao Esporão”. Cheguei ao restaurante regional do Esporão a tempo de devorar um jantar de lombo e vinho e em conversa com um pedreiro de Arganil, atendido por uma moça de óculos graduados a sorrir muito por detrás do balcão. “Qualquer coisa é só pedir. Castanheira de Pêra a pé? Isso são muitos quilómetros…”


DIÁRIO DE VIAGEM

Estou agora pelas bandas de Góis sem o apoio confortável de uma publicação mas mais determinado do que nunca a ir até ao fim. Temos um país lindíssimo, seguro e fantástico e fingimos que não sabemos, entretidos a ler as colunas diárias dos jornais sobre a crise. Por mim, que se lixe a crise. Aqui respira-se ar puro.



OUTONO EM GÓIS



GÓIS, OUTUBRO DE 2008



PONTE EM GÓIS



CASTANHAS ENTRE GÓIS E CABREIRA



FOLGOSA AO LONGE



PAÍS VAZIO



CABREIRA





ENTRE TARRASTAL E CADAFAZ (GÓIS)



CADAFAZ (GÓIS)





CANDOSA (GÓIS)



COLMEAL (GÓIS)



PERDIDO NO BOSQUE (ENTRE COLMEAL (GÓIS) E CEPOS (ARGANIL)




OUTUBRO EM GÓIS

O frio chegou de repente vindo dos penedos da Pena, varreu os camiões estacionados em frente aos restaurantes de estrada do Esporão, soprou pelo vale de Góis e trepou pela Cabreira em direcção a Arganil. Afugentou as gentes para dentro das lojas, arrastou folhas amarelas e avermelhadas, invólucros espinhosos de castanhas e a ramagem seca e outonal dos plátanos para o Ceira. Até os cardumes de peixes fugidios e pequeninos a correr atrás uns dos outros por entre as pedras pareciam querer fugir da súbita invernia. “Oh Dona Maria, faça-me um favor, feche-me essa porta”, pediu a dona da padaria, entre o quente aconchegante dos fornos e a rispidez gelada do vento entrando pela porta de madeira branca entreaberta.
Na serra, entre curvas de asfalto, as bermas cobertas de castanhas, um fumo branco de queimada ergueu-se no verde desfocado e triste da encosta contrária, mal se distinguindo entre o cinzento aborrecido do céu e a silhueta enevoada dos penedos de Góis. “Dão granizo para amanhã e neve para a Serra da Estrela”, diz um homem desocupado, de mãos nos bolsos, procurando conversa junto de outro a trabalhar uma latada. “Isto ainda não é nada”, responde o outro secamente, dirigindo-se para junto de uma pequena casa de xisto, a porta da garagem autenticada com a inscrição a branco “Garagem do Pirolito”.


Num dia de semana de Outubro, poucas pessoas se dão a ver na Cabreira. Uma avó cuida do neto e da filha na solidão do Café e Esplanada “Sonho da Juventude”. Uma idosa conversa com a vendedora de peixe que acaba de parar a carrinha na pequena praça da povoação. Dois homens consertam um algeroz junto ao restaurante “Tranca da Barriga”. Dois velhos espantam o frio sentados na tasca do taxista da Cabreira, que os ouve desfiar histórias requentadas e lentas à frente de dois copos de vinho a 30 cêntimos. “E eu ontem procurei-la, ela disse que ele 'teve um acidente mas que já saíu do hospital. Atão não era de vir falar co' a gente?” O segundo idoso, boina preta cobrindo a cabeça redonda e branca, esfrega demoradamente o queixo, depois o maxilar inferior como se acariciasse uma barba imaginária e aperta os beiços antes de levar o copo à boca: “Para quê? Ela não quer falar com vocês”.
A caminho da aldeia fantasma do Tarrastal, as copas de eucaliptos magrinhos chiam por cima da minha cabeça como baloiços. Soam vozes distante de homens e moto serras, algures perdidos na serrania. Um casal trabalha uma horta num vale perdido sem nunca dar pela minha presença. Umas botas de montanha repousam junto à porta de madeira de uma casa de xisto.


No Cadafaz, duas idosas irrompem de um beco conduzindo as últimas cabras da serra: “Está muito frio, sim senhor”, diz uma entre um sorriso envergonhado meio encoberto por uma manta de lã. A aldeia prolonga-se num casario que corre o topo da encosta de um lado ao outro, desemboca numa capela junto a um miradouro e segue pela Rua Doutor Oliveira Salazar, num misto de xisto e tijolo. Nos fundos da aldeia, espantando a solidão, um homem: “Tantas casas e tão poucas pessoas, não é? Vou p'ra dentro que está a ficar frescalhote”.


FUNERAL NA SERRA

Um homem vestido com uma samarra escura passa por mim ainda eu tenho a vista presa ao Ceira iluminado pelo sol das duas da tarde que corre entre pastos verdejantes da Candosa. O homem ultrapassa-me em passos largos e caminhada de aldeão. Quando dou por ele já está a ler um papel branco com letras pretas. Depois, desaparece entre pinheiros e eucaliptos, para lá da curva. “Gostava de ter a pedalada dele”, penso. O papel anuncia o funeral de Manuel do Colmeal.


Quando chego à aldeia, uns três quilómetros adiante, já um magote de gente se vai juntando no largo perto de um café. “Lá se foi o Manel, era o seu destino...”, comenta um homem de suíças e popa à Elvis Presley vestindo um blusão preto de cabedal. “Chega a vez a todos, não é?”, diz a mulher que atende no café da terra. “Serve-me um copo”, diz o homem. “Tinto ou branco?” O homem das suíças acizentadas e grisalhas como cinza num rescaldo encolhe os ombros: “Tanto faz. Pobre do Manel. 'Inda era novo, não era?” A mulher, as mãos embrulhadas num casaco de malha, por cima do balcão: “Então não era...59 anos. Olha, este é que não teve sorte nenhuma na “bida”. Depois do primeiro acidente, disseram-lhe para parar de trabalhar. Continuou, teve o segundo acidente”. Um segundo homem entra no café, depois um terceiro, mais um quarto. “Não bebem nada?”, pergunta o homem das suíças grandes. “Pode ser um copito”, diz um. “Eu não posso, pode ser um sumo”, diz outro, muito magro, um homem jovem precocemente envelhecido, a pele seca e esticada no pescoço, os olhos avermelhados. “O segundo acidente foi de quê? Não caíu de um aindaime?” A mulher serve mais copos: “Olhem que vocês hoje têem de me ajudar, o patrão 'tá para o funeral e eu estou para aqui emprestada. As minis já sei que são 55...o copo de vinho? Trinta?”
Lá fora, uma multidão silenciosa de vultos negros cerca a Igreja branca erguida entre ciprestes no topo de um monte. Tudo o que se ouve no vale perdido na serra é o “vxxxxxhhhhh...” das eólicas pairando como fantasmas brancos sobre o Colmeal.


“É às quatro, não é?”, pergunta um homem encostado a um calendário com uma paisagem de uns picos de neve muito brancos e um vale muito verde. Por cima, há raposas, um esquilo e um mocho empalhados. Ao lado, uma lareira. “Se for o padre Xavier, é às quatro. Com ele, não há atrasos. Se fosse o padre Carlos...” A mulher sorri: “Ui, esse nem amanhã...” Está escrito que o funeral do Manel do Colmeal é uma oportunidade para os cada vez menos habitantes da serra se juntarem. Veio gente de Góis, do Cadafaz, de Cepos, da Cabreira. Todos conheciam o Manel. “Ele tinha invalidez e continuava a trabalhar...Não era homem de parar. Deixou para aí obras espalhadas...” Um aldeão não perde tempo: “Os filhos acabam-nas, “num” é? É para isso que servem os filhos”. A mulher ao balcão: “Eles são muito trabalhadores...” Até que alguém ganha coragem depois de mais um copo: “Afinal, de que morreu o Manel?” O Manuel, já andava mal do fígado e vesícula, terá falecido de um fulminante cancro no pâncreas. “Pobre Manel, foi o dia dele”.


Lá fora, o largo deserta. A serra encolhe-se de frio. Um a um, os homens vão saíndo. As mulheres há muito que estão na Igreja. O café esvazia. Só lá fica um idoso de bigode escuro, boina preta e olhos de raposa, as maçãs do rosto rosadas. “Eu já não tenho pernas para acompanhar o funeral, vou beber mais um copito. Coitado do Manel, este já não vai ao meu funeral. Dá-me lá mais um copito”.


DIÁRIO DE VIAGEM


Passei os últimos dias a descer e subir a serra, de Góis à Cabreira, por aldeias perdidas como Cadafaz e Colmeal(...).

Fotografias de Nuno Ferreira
in http://portugalape.blogspot.com

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