domingo, 30 de março de 2008

Filarmónica Goiense vai comemorar as bodas de diamante

No próximo dia 12 de Abril, a Associação Educativa e Recreativa de Góis, vai comemorar o 75.º aniversário do ressurgimento da sua Filarmónica.
Data significativa na vida de uma colectividade, as bodas de diamante da Filarmónica vão Ter o seu ponto alto no encontro de bandas a realizar no salão da Associação.
Oportunamente vai ser dado a conhecer o programa deste acontecimento, importante, para a Filarmónica, mas também para Góis e para os goienses.

«Constituiu um acontecimento a inauguração da Filarmónica Goiense» (A COMARCA de 11 de Abril de 1933)

Recuando no tempo, foi assim que há 75 anos, na sua edição de 11 de Abril, A Comarca destacava, num título, «Constituiu um acontecimento a inauguração da Filarmónica Goiense». E por isso «A vila de Góis esteve em festa» pelo motivo desta inauguração. Onde, como escrevia o representante do nosso jornal, acorreu «uma enorme multidão de pessoas das terras e concelhos circunvizinhos, tendo sido o dia de anteontem um daqueles que jamais se apagará na memória de todos os filhos daquele concelho».
E depois de descrever o início das festas, com a alvorada, a Filarmónica a tocar no Castelo e depois a percorrer as ruas da vila, onde na Câmara foi içada a bandeira nacional ao som dos seus acordes, havendo ainda a distribuição de um bodo aos pobres à porta da casa de ensaio, o representante de A Comarca salientava que «pouco depois do meio dia, ouvem-se de novo os acordes da Filarmónica. Vem a sair da sua sede e encaminha-se para o Largo do Pombal, parando à porta da casa do sr. eng. Álvaro Paula Dias Nogueira.
S.ex.ª convida a Filarmónica a entrar em sua casa, onde a todos os executantes manda servir vinhos finos e bolos.
O sr. eng. Álvaro Dias, usa da palavra para agradecer a distinção que lhe quiseram dar, afirmando que o enche de satisfação a restauração da antiga Filarmónica da sua terra, cujo passado ainda hoje se recorda com saudade, pois ela fora em tempos idos, uma agremiação disciplinada e composta de rapazes briosos e amigos da sua terra.

Antigo director de A Comarca foi director da antiga Filarmónica

Tendo sido director da antiga Filarmónica seu falecido pai - o saudoso Francisco Inácio Dias Nogueira (que foi director de A Comarca) - a ele se refere comovidamente, tendo palavras de saudade pela sua memória, e dizendo que, se fosse vivo, sentia naquele dia, como o orador sente, uma grande alegria pelo empreendimento levado a efeito, pois ele fora sempre uma pessoa dotada dum bairrismo ao mais alto grau, pretendendo levantar a sua terra ao nível moral tal, que a tornasse credora da estima e consideração de toda a gente e não se tendo poupado nunca, nem a trabalhos, nem aos maiores sacrifícios para fazer da Filarmónica uma banda que honrasse o seu Góis».

«Entrega da bandeira à Filarmónica»

E continua o autor da reportagem: «Seguidamente, o sr. eng. Álvaro Dias ofereceu à Música a bandeira da antiga Filarmónica, que se encontrava em seu poder, a ela se referindo assim:
- «Está ali o estandarte da antiga Filarmónica, que atesta e lembra todo um passado de glória. Como não tendes bandeira, lembrei-me de vos oferecer aquela, porque, se para mim ela é querida pelas recordações que encerra, e que se relacionam com a vida pública de meu pai, também para muitos de vós ela conterá recordações bastante gratas, o que me garante que será respeitada dignamente nas vossas mãos. Se assim o quiserdes, ficará pois sendo aquela bandeira a da vossa Filarmónica, e ela irradiará sobre vós todo o seu passado glorioso, de respeito e disciplina.
«Uma única coisa desejo, porém: é que, se esta Filarmónica se dissolver ou tiver qualquer outro carácter diferente daquele que serviu de base à sua constituição, esta bandeira me seja restituída, ou na minha falta a quem me representar.
«Nas vossas mãos entrego pois, o estandarte da vossa Filarmónica, certo de que todos se esforçarão por juntar às glórias que ela encerra outros troféus mais brilhantes ainda».

Os responsáveis pelo ressurgimento da Filarmónica

Ainda a referir-se às palavras de Álvaro Dias, o autor da reportagem continua: «Terminou por pôr em relevo o êxito dos esforços empregados para o ressurgimento da colectividade, louvando todos os seus organizadores, especialmente o sr. Fernando José Ferreira, a quem sem dúvida se deve o maior quinhão para tão belo resultado e ainda os seus principais colaboradores - os srs. Adelino Ribeiro, Abílio Adão, Carlos Barata e António Nogueira».
Depois das palavras de Álvaro Dias, o discurso foi coroado por uma estrondosa salva de palmas, como se escreve, «e o estandarte foi em seguida confiado à Filarmónica, que atravessou triunfante as ruas da vila, apinhadas de povo, em direcção a S. Paulo, executando a marcha «Saudação a Góis», de autoria do sr. Fernando Ferreira.
O estandarte, artisticamente confeccionado, pertencera à antiga Filarmónica Regeneradora, a quem fora oferecido pelo sr. Francisco Inácio Dias Nogueira em 1903, no dia da comemoração da formatura de seu irmão, sr. dr. Aníbal Dias».
Depois, como refere a reportagem, foi a recepção aos visitantes de Lisboa na Câmara Municipal e que eram aguardados pela Filarmónica e que «vieram tomar parte no regozijo dos goienses» (...) Ao cabo da ponte mal se pode romper. (...) Uma boa parte do povo não consegue entrar, na Câmara. (...) Preside o sr. dr. Rui Manuel Nogueira Ramos», que «como representante do concelho apresenta os seus cumprimentos aos ilustres e numerosos visitantes que quiseram vir honrar aquela vila com a sua presença».

«A festa a que se está a assistir é o pretexto para todos se darem as mãos com aquele alto pensamento, sentindo-se que foram abatidas as bandeiras que dividem os homens com as suas dissídias», e citando, «a união que se vê nos concelhos vizinhos, como por exemplo, em Arganil, Lousã, Poiares», salientou «que é assim que essas terras progridem, constantemente, arredando para bem longe discórdias, quando se intenta qualquer melhoramento, entendendo que é assim que Góis deve também proceder» (representante da Filarmónica Goiense há 75 anos)

Outros oradores se seguiram enaltecendo o facto do ressurgimento da (nova) Filarmónica, nomeadamente o seu representante, Carlos Barata, que considerou «um bem para a sua terra», e depois de salientar o «amor que todos têm ao torrão natal», frisou que «a festa a que se está a assistir é o pretexto para todos se darem as mãos com aquele alto pensamento, sentindo-se que foram abatidas as bandeiras que dividem os homens com as suas dissídias», e citando, «a união que se vê nos concelhos vizinhos, como por exemplo, em Arganil, Lousã, Poiares», salientou «que é assim que essas terras progridem, constantemente, arredando para bem longe discórdias, quando se intenta qualquer melhoramento, entendendo que é assim que Góis deve também proceder».

«A Filarmónica dividiu-se em duas, numa cisão em que houve lutas tenases»

Outro dos oradores de então, o dr. Mário Ramos, referindo-se à Filarmónica Goiense disse que «ela tem tradições honrosas, tendo sido fundada há 70 anos. Mais tarde, a Filarmónica dividiu-se em duas, numa cisão em que houve lutas tenases, mas durante as quais um facto se constatou: nada houve que apoucasse os sentimentos nobres daquele povo».

«Porto de honra no Hotel Candeias»

No final da recepção oficial na Câmara Municipal, refere-se na reportagem que no Hotel Candeias foi servido um Porto de honra aos convidados e depois a Filarmónica deu um concerto «num coreto que havia sido construído na Praça da República, sendo muito aplaudida pela multidão que ali se encontrava».
E a festa terminou com «um jantar de confraternização, no Cine-Teatro Dias e foi servido primorosamente pelo Hotel Goiense, propriedade do sr. David Candeias» e mais palavras regozijando-se pelo ressurgimento da Filarmónica, tendo ainda os visitantes de Lisboa, quotizando-se, sendo apurado 1.522$50 para a compra de um instrumento, e «seguidamente continuou o esplêndido concerto da Filarmónica até á uma hora da noite, tendo agradado bastante, pelo que o seu regente, sr. Abílio Martins Adão, foi muito felicitado.
A concorrência do povo manteve-se até de madrugada, havendo sempre a maior animação e entusiasmo.
Ao ar foi lançado um interessante fogo de artifício. (...).
Assim terminaram as festas da inauguração da nova Filarmónica de Góis, que oxalá seja o início de uma nova fase de desenvolvimento daquela linda vila.
São estes os votos de A Comarca de Arganil».

Ontem, como hoje, os mesmos votos e com esta transcrição quisemos recordar um momento alto da história da Filarmónica Goiense, enaltecer o exemplo e homenagear aqueles que lhe a fizeram ressurgir, sem esquecer todos aqueles que ao longo de todos estes anos continuaram e continuam empenhados em manter bem viva e rejuvenescida esta que é a grande embaixadora da cultura de Góis.
E se a festa das comemorações das bodas de diamante do seu ressurgimento não vão ter o esplendor de há 75 anos, fica a certeza de que a Filarmónica continua a ser o orgulho de Góis e dos goienses.
J. M. Castanheira
in A Comarca de Arganil, de 25/03/2008

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