sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Góis e um pouco da sua história

Há anos um saudoso Amigo, escritor e poeta Goiense de nome António Rodrigues Dias entregou – me, em forma de folheto, este trecho da História de Góis, que guardei com outras recordações dele, que passo a citar, em jeito de homenagem:
Podemos situar a fundação da vila de Góis no início do reinado de D. Afonso Henriques, ou um pouco antes até. Não há, naturalmente, documentos que permitam determinar com justeza o ano do seu povoamento, ou refiram a proveniência dos primeiros habitantes. E, as lendas, embora provenham quase sempre de factos verídicos, vão-se afastando deles, pouco a pouco, com os aditamentos.
Assim, por exemplo, a posição geográfica da vila de Góis, não é universalmente aceite, pois embora os documentos mais antigos a situem no local que hoje ocupa, uma tradição a que muitos dos habitantes da região têm dado todo o crédito, afirma ter a vila ocupado uma posição diferente, um pouco mais abaixo e na margem esquerda do Ceira no sítio denominado “Forca”. E a corroborar esta asserção, apontam os montes de pedra existentes no local, restos das antigas tradições. Ambas as posições são aceitáveis. É verdade que há muitos séculos ocupa a posição actual desde 1105 ou 1130 conforme os primeiros documentos escritos que a ela se referem. Mas, apesar de improvável, não deixa de ser possível que a tradição tenha fundamento e os primeiros habitantes de Góis tenham vivido no sítio referido, a “Góis Velha”.

Foi dito que Anião Vestariz, primeiro senhor de Góis e dele descendiam as mais ilustres famílias, e, de entre elas os Lemos. Desta família vieram as personagens mais ilustres da história da vila e de grande projecção em determinado período da vida Nacional. O inicio desse período de grandeza ocorreu no tempo de D. Afonso V, quando D. Brites de Lemos, filha de D Fernão Gomes de Lemos, senhor de Góis, casou com D. Diogo da Silveira, senhor de Recardães e de outras terras e escrivão da puridade desse monarca. Os Silveiras, segundo a “Nobiliarquia Portuguesa” descendiam dos Prestanas, distinta família que vinha de Geraldes, “O Sem Pavor” que no tempo de D. Afonso Henriques tomou Évora aos mouros. Família riquíssima e de grande poderio na época, tinha o seu solar em “Silveira”, no Alentejo, e dela derivam outras, igualmente distintas, como o dos Condes de Sarzedas. Um destes, era precisamente D. Diogo da Silveira que ao casar com D. Brites proporcionou a união de grandes domínios, deixando ao seu filho D. Luís da Silveira e Conde de Sortelha uma riqueza extraordinária.
É então que se verifica o apogeu de Góis. Os Condes de Sortelha embora vivendo em Lisboa, dedicam grande amizade àquela zona dos seus domínios onde tem o seu solar para passar grandes temporadas. D. Nuno Martins da Silveira, sobretudo, escrivão de puridade vem frequentemente à vila onde faz construir o soberbo Paço. – Hoje não resta pedra sobre pedra atestar a projecção alcançada no período áureo que então viveu. Foi um filho deste, D. João da Silveira, prior de Góis de 1528 a 1531, quem neste ano mandou erigir na Igreja Matriz um túmulo para o seu pai aqui falecido, possivelmente em 1528 – que é uma obra notável.
É unanimemente considerado como uma das mais genuínas obras Renascentistas do País e foi executado por mestres de uma célebre escola de Coimbra, sem dúvida a mais notável da época, prova insofismável do valor e possibilidades dos Condes de Sortelha. Acerca desta grandeza é bem elucidativo o texto do foral concedido por D. Manuel em 1516. (Eram de tal modo vastos os seus domínios que a sua administração se tornava extremamente difícil motivando alguns erros. Estes provocaram descontentamento e levaram D. Manuel à concessão do dito foral).

Posteriormente, menor aceitação na corte e outros problemas ofuscaram um pouco o grande esplendor dos Condes de Sortelha. Mas os Silveiras mantiveram sempre a sua dignidade aceitando-os paciente e filosoficamente, sendo característica sua. Dos maus e bons tempos, o bom humor, a argúcia, a argumentação pronta, inteligente e oportuna. Alguns dos Silveiras ficaram conhecidos por isso mesmo, merecendo as histórias pitorescas dephtegmas Memoráveis de Suppico de Morais. Recordando três exemplos significativos, extraídos da obra referida. Quando D. Luís da Silveira, se despedia do pai para embarcar para a corte de Castela como embaixador junto de Carlos V, o pai, que previa a perda de valor junto do rei de Portugal e viu nessa missão uma manobra para afastar o filho da Corte (do que este discordava), e disse-lhe: “Vai-te embora, que nesta tua ida saberás que não podes viver sem El – Rei e El-Rei saberá que pode viver sem ti”Não sabemos que resposta terá dado o filho, mas deve ter sido interessante, a avaliar pela ironia fina e oportunismo que deu provas no episódio seguinte com Carlos V. Como este Rei, então poderosíssimo, lhe perguntasse um dia, sarcasticamente: “Conde, quando em Portugal se levanta uma lebre, onde é que a vão matar?”
Este respondeu de pronto: “Senhor, à Índia que é dali a cinco mil léguas…”. Uma outra lhe é atribuída e merece destaque. Após regressar a Portugal foi friamente recebido na Corte, como seu pai profetizara, o que lhe causou natural desgosto. Triste e abatido recolheu-se ao seu solar de Góis onde passava o tempo na pesca ou na caça pelas suas terras. Num dia de pesca, quando um campónio lhe perguntou respeitosamente se o “peixe picava”, ele respondeu: “Homem, eu pesco tempo e não peixe”.
...
Como a versão do notável túmulo dos Silveiras existente na Igreja M. de Góis, não se harmoniza bem com outras versões já lidas, quis um dia tirar uma dúvida com Rodrigues Dias e ele me disse: “A História é como eu a contei”. E assim fica como ele a escreveu…
in http://canticosdabeira.blogs.sapo.pt

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